As construções pictóricas densas e saturadas de Thalita Hamaoui parecem remeter, inicialmente, à paisagens bucólicas mas em olhar atento nota-se que essas confluem para uma interioridade. Suas intrigantes e fluidas passagens entre o abstrato e figurativo, comprovam o intento da artista de capturar menos os contornos dos fenômenos do que seus estados a partir da esfera da experiência sensorial direta. As dualidades — interno e externo, luminosidade e escuridão, realidade e ilusão — convivem  ativamente no trabalho de Hamaoui, cujas transições ora aproximam-se da colagem, ora de um efeito aquarelado. Esse último talvez seja um remanescente dos oito anos em que a artista trabalhou como designer de superfície. Neste período seu interesse era dedicado aos processos de tingimento e aos desenhos geométricos com aplicações de aquarela vazando seus limites. Já em suas pinturas, esse vazamento é intenso e acontece sem demarcações prévias.

 

O processo da artista também ocorre em camadas de tempo e densidade. Ela pode levar até dez dias para atingir as passagens desejadas de cor, o que aponta para uma expressividade que não ganha a tela apenas com um impulso. Esse jorro gestual é administrado dentro de um processo lento e contemplativo a partir de uma relação íntima com a tela. Um olhar minucioso e ativo que aos poucos incorpora vibrações dentro do próprio ritmo cotidiano permeado pelas tarefas domésticas e familiares — seu ateliê fica dentro de seu apartamento — e que aos poucos vai se consolidando de forma ora visceral, ora plena.

 

O aspecto chapado da pintura, que oscila entre nenhuma ou pouca distinção entre figura e fundo, poderia deixar o olhar escapar, mas em vez disso ele se coloca como uma realidade  que convida a uma penetração estrutural, mesmo que sua simples tatilidade a impeça. Uma tatilidade testemunha de um constante devir, que oscila entre a criação e o desmantelamento numa mesma medida. Essa ação disruptiva tem origem em uma série de imagens de Chernobyl que a artista pesquisou por um tempo.

 

Mas o que permaneceu dessas imagens no trabalho foi a ideia de um ciclo constante entre colapso e resiliência indissociável da história humana. Entre o colapso e a resiliência, abre-se uma brecha sensual e voluptuosa, em especial nas pinturas mais abstratas e com uma paleta mais quente. Uma dança pictórica que parece desafiar a própria existência: como dar forma ao caos? Como Friedrich Nietzsche bem colocou em Assim falou Zaratustra: "Amo aquele cuja alma transborda, a ponto de se esquecer de si mesmo e quanto esteja nele, porque assim todas as coisas se farão para sua ruína."

por Thais Gouveia, 2017.

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