A BORDA DO MUNDO

LISBOA 25.06 // 08.08.2020

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Vistas da exposição A BORDA DO MUNDO

ABORDAR O MUNDO

A pintura já foi a janela do universo, por onde os europeus olhavam, projetavam e concretizavam o seu mundo. Convenções pictóricas, dispositivos técnicos e filosóficos foram desenvolvidos durante séculos neste processo de ludibriar a visão e de dar formas ao desejo de controle da realidade e da vida. Neste contexto, a arte era compreendida como verdade e conhecimento e o labor do artista igualado ao de um cientista. Na medida em que os métodos  de construção imagética foram se aperfeiçoando novos temas e gêneros passaram a ser criados, sendo a paisagem um dos mais prestigiados. Isso ocorria em paralelo ao alastramento e ao aperfeiçoamento do colonialismo que invadia terras de outros povos, impunha seu modo de vida, sua língua e seu Deus. A tecnologia e a mentalidade que propiciavam esses “avanços” territoriais eram as mesmas que burilavam o registro deste novo mundo.

           

Como nos lembra a filósofa Anne Cauquelin[1], a paisagem parece ser continuamente transformada num dado natural, como se ela própria não fosse uma construção e fruto de um longo e paciente aprendizado. O mesmo poderia ser dito sobre outros dados da vida social da parte hegemônica do globo como o privilégio de ser o centro do mundo, o ponto de onde partem todas as métricas, a fonte de toda a verdade sobre tudo. Com Cauquelin aprendemos ainda que o paisagismo é um artifício de uma encenação dos elementos naturais (água, terra, fogo e ar), numa espécie de arte do enquadramento e da composição e que o jardim evoca e invoca uma natureza em obra: fechado, detalhado, especificado de tal forma a apagar as marcas da jardinagem. Trata-se, portanto, de praticamente uma metáfora de como ordena-se a organização da vida humana de maneira assimétrica, baseada em regras tão subterrâneas que acreditamos serem “normais”.

           

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CORPO DE VENTO, 2020, gesso, acrilica, clay, barbante e linho, 195 x 120 cm.

No entanto, quando começou a ser possível produzir imagens mecânicas que traziam maior fidelidade do que era representado, os pintores europeus e europeizados reivindicaram outro território como verdade: a singularidade expressiva que só a mão do artista poderia dar como resposta ao mundo. Parte da produção artística abstrata de parte da vanguarda alicerçava-se sobre este entendimento, enquanto o mundo ocidental erigia máquinas que aceleravam os deslocamentos, encurtavam as distâncias, captavam e registravam/dominavam os movimentos. Outras máquinas estavam sendo gestadas para destruir populações, cidades e paisagens de maneira muito rápida e eficaz, salvaguardando a vida de quem as acionava, o que rompia com a ética da morte até então em voga entre “iguais”, já que a covardia persistia na aniquilação de quem era considerado “inferior”. O que os brancos chamavam de paisagem transformava-se com a verticalização e o espalhamento de suas comunidades. Os movimentos sociais expandiam o entendimento do que é o mundo além da colonialidade e do patriarcado. Destarte, o que era conceituado como arte também ensaiava mudança, transformava-se, transbordando as fronteiras contentoras dos quadros, esculturas, gravuras e desenhos, atravessando a relação entre sujeito e objeto, adentrando literalmente os espaços físico, político, econômico, cultural e social. É quando notamos a emergência da arte contemporânea, uma produção mais plural e transbordante, que rechaça as convenções linguísticas pautadas num mundo já moribundo, trazendo novas formulações das questões na ordem plástica.

Quando foi o Contemporâneo na arte? Já terminou ou ainda estamos nesta época histórica? Se foi finalizada seria a grande epidemia de COVID-19 seu marco final? Sem a intenção de responder a estas questões delicadas e complexas, sintonizemos então neste momento e lugar, em que este texto é disponibilizado: Lisboa, um pouco depois do primeiro fim do mundo[2]. Estamos diante das obras produzidas por Thalita Hamaoui, uma jovem artista brasileira imigrante que encontrou na pintura sua forma principal de expressão e que as apresenta depois de uma quarentena sem precedentes na história recente do mundo. Deparamo-nos não com uma representação do mundo ou a sua descrição, mas uma revelação de camadas de um universo interior. De fato não se esperaria que uma artista nascida num contexto tão distinto do que descrevi anteriormente tivesse que seguir a citada cartilha. Mas mesmo assim é importante apontar o terreno onde floresce sua árvore genealógica e toda a problemática que se coloca neste território pictórico.

 

Tratamos sobre a já decadente tentativa de representação do mundo e achamos que devemos mudar o canal para uma nova etapa: a apresentação de mundos. A crença numa experiência da pintura que seja totalizadora da realidade e sua história restrita ao que se chama Ocidente já não se sustenta e presenciamos a visibilização de outras formas de estar e de apresentar mundos. É neste contexto que Thalita engendra suas cartografias subjetivas compostas por lembranças de terras, invenções de paisagens que sugerem estados de espírito e simbologias ancestrais. Esta iconografia é construída em tecidos e não em telas, sem molduras, o que acaba por acrescentar duas camadas complementares aos seus trabalhos: a primeira é a volumetria que é conseguida com a textura própria da fibra do linho; a segunda é de ordem conceitual, pois por não estarem contidas em armações têm nas extremidades um ponto de mistura e contágio com o mundo. Esta escolha parece apontar não apenas para uma apresentação de mundos, mas para uma tentativa de abordar o mundo, ou seja, re-imaginar territórios, tanto da própria pintura quanto do que nos rodeia, a partir das bordas, daquilo que margeia, re-embaralhando limites e localizações.

           

Alguns dos trabalhos apresentados nesta exposição começaram a ser feitos antes da pandemia, mas o conjunto foi finalizado no compasso da espera. Agora vendo-os neste nosso contexto de desconfinamento, parecem marcadores de tempo, pois as pinturas emergem ora do fundo branco, ora do fundo azul escuro, nos remetendo ao dia e a uma quase-noite. Mesmo no azul noite há uma radiância que nos faz enxergar, traz- nos a esperança de um novo recomeço, de uma nova aurora. Enquanto os humanos ficavam em casa (quem tinha este privilégio ao menos) os dias continuaram a suceder as noites, as plantas continuaram a crescer e a primavera seguiu sua marcha. Só precisávamos continuar a cultivar o mundo dentro de nós. No entanto, o mais importante era semear um mundo melhor, menos humano (no sentido de controle racional sobre o planeta) e mais orgânico como as plantas e os animais, aprendendo a partir e com as bordas.

 

Cristiana Tejo

Lisboa, junho de 2020

[1]    Cauquelin, Anne. A Invenção da Paisagem. São Paulo: Martins, 2007.

[2]    Os epidemiologistas acreditam que o Corona vírus sofrerá novas mutações o que acarretará novas epidemias.

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Foto do catálogo da exposição.

A BORDA DO MUNDO

LISBOA 25.06 / 08.08.2020

  

A diversidade do mundo de Thalita Hamaoui, expressa-se pelas suas obras enfatizando a  verticalidade de uma vida vegetal, como uma experiência catártica que purifica as  exteriorizações espirituais e nos transporta para um barroco tropical. A sua destreza de  linguagem pictórica, contrapondo as formas orgânicas à rígida geometria de estilo  cinematográfico, ultrapassa os limites da realidade que carrega uma objectividade emocional. 

O uso de cores vibrantes remetem ao sobrenatural da visão pessoal do mundo de Hamaoui,  com um estilo fauvista e equilibrado entre a pureza e a serenidade, destituído de temas  perturbadores, sugerindo nas sua linhas as texturas e continuidade dos elementos  desenhados, submersos de impulsividade e experimentação.  

A BORDA DO MUNDO, é a planificação de uma natureza que nos abraça e acolhe como parte  dela, de forma orfista, usando as cores puras de expressão artística e aplicadas segundo o  principio do contraste simultâneo que nos embala numa melodia lírica e ritmada de batimento  cardíaco, o ritmo de Thalita Hamaoui.  “A natureza é natureza, não poesia. É a reação dela sobre o carácter de alguns seres que  produz a poesia”  - Pierre Reverdy 

Mercedes Cerón, Curadora 

  

  

The diversity of Thalita Hamaoui's world is expressed by her works emphasizing the verticality  of a plant life, as a cathartic experience that purifies spiritual externalization and transports us  to a tropical baroque. Her dexterity in pictorial language, opposing organic forms to rigid  cinematographic style geometry, goes beyond the limits of reality that carries emotional  objectivity. 

The use of vibrant colours recalls the supernatural of Hamaoui's personal vision of the world, in  a Fauvism style balanced between purity and serenity, devoid of disturbing themes, suggesting  in its lines the textures and continuity of the elements drawn, submerged in impulsiveness and  experimentation.  

A BORDA DO MUNDO is the planning of a nature that embraces us and welcomes us as part  of it, in an orphist manner, using the pure colours of artistic expression and applied according  to the principle of simultaneous contrast that envelops us in a lyrical and rhythmic melody of  heartbeat, the rhythm of Thalita Hamaoui. 

"NATURE IS NATURE, NOT POETRY.

IT IS HER REACTION ON THE CHARACTER OF SOME

BEINGS THAT PRODUCES POETRY"

Pierre Reverdy